quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Criança Sorriso - Parte 2

Nessa foto eu ainda não tinha um ano, devia ter uns 9 meses e estava apontando um avião no céu, segundo minha mãe contava...

Quando eu nasci, minha mãe já tinha quase 39 anos...Hoje em dia isso é até bastante comum, pois as mulheres estão priorizando suas carreiras e deixando para ter filhos mais tarde, mas naquele tempo, em 1957, isso era bem incomum, até porque as mulheres de 38 anos não eram como as de hoje, bonitonas, saradas...as mães daquele tempo eram mais envelhecidas, naturalmente. Minha mãe era uma mulher muito bonita, mas tinha muitos problemas psicológicos. Quando soube que estava grávida de mim, contava que saiu do consultório médico chorando muito, desesperada, pois ela já tinha dois filhos grandes e nos três primeiros meses de gravidez, ficava um graveto, pois nada parava em seu estômago, ela colocava tudo para fora, até água e ficava literalmente, de cama. Ainda bem que minha avó morava com ela, pois cuidava de tudo para que a pobrezinha ficasse lá, entregue às baratas, vomitando tudo o que via pela frente...
Minha mãe era frágil, era despreparada para a vida e, apesar de ter sofrido muito com a doença de meu avô (seu pai morreu de câncer de faringe e artério esclerose) fazia um drama sem tamanho por tudo e por nada. Quando descobriu que eu fumava, se jogou na cama feito uma criança e ficou lá chorando por horas...Não sei bem se é por isso, cresci querendo ser totalmente diferente dela. E sou, embora muitas vezes me veja repetindo atitudes suas...isso é inevitável, afinal, sou sua filha...Mas me sabia forte, sabia que podia aguentar os trancos da vida. Sempre lutei pelo que queria e se não conseguia, corria atrás até conseguir...Não sei bem de quem herdei essa persistência diante dos Nãos que a vida me dá, acho que da minha avó materna, que sofreu o pão que o diabo amassou a vida toda e nunca a ouvi se queixar ou maldizer a vida. Tinha uma alegria de viver invejável...Eu tenho a minha avó como meu exemplo de mulher de fibra. Aquela que teve tudo para se tornar amarga e triste e, pelo contrário, soube ser uma pessoa de sorriso no rosto e uma fortaleza diante das agruras da vida.
E realmente, cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era igualzinha à minha avó no meu jeito de ser...
Acho que essa foto é da mesma época da outra. Eu devia ter uns nove meses...Meu irmão, coitado, que foi um bebê lindo estava na fase mais feia de sua vida...e ainda tinha quebrado os Mentex da frente...devia ter aí uns onze anos...

Bem, nasci....Vim ao mundo num dia de setembro e minha mãe demorou dois dias e duas noites para me ter...Das duas uma: ou eu não queria sair de lá, tão quentinho, tão gostoso ou ela é que queria que eu ficasse, para sempre protegida, em seu ninho, preparado pela natureza para mim...Fui retirada à fórceps e a coitadinha, sofreu mais uma vez...o obstetra dela era um grosso, um estúpido que lhe disse, quando ela gritava de dor: Fica quieta, pra fazer foi bom, né? Agora aguenta..."
Vejam se pode uma coisa dessas? E minha mãe adorava ele...Hoje em dia isso dava até processo.
Pois é, e lá vim eu para este mundo, amada por todos...só minha irmã teve um pouco de ciúme de mim, mas só durante uma fase da vida. Afinal, durante 7 anos ela foi a princesa da casa...aí, chego eu, toda fofinha, gordinha e sorridente e abalo o seu reinado...não é por acaso que seu nome é Regina...rsrs
Aqui eu tinha uns 5 anos. Sorrisinho lindo mesmo...Essa fantasia de holandesa eu me lembro até hoje...foram minha mãe e minha avó que fizeram. Era de organdi e cetim e  toda aplicada com tulipinhas de feltro...reparem nos tamanquinhos de madeira, legítimos...
Olhando essas fotos me deu uma saudade imensa da minha família, de quando éramos todos crianças. De quando meu pai e minha avó eram vivos, meus padrinhos, que me adoravam, também. Da minha mãe, com seu colo e suas muitas broncas...Hoje, todos já se foram...Minha mãe faleceu há 10 anos, com 81 anos. Estava lúcida e foi uma velhinha muito fofinha e uma avó maravilhosa para os netos...
Nossas diferenças se apagaram com o tempo e até mesmo o que ela não fez por mim, hoje eu compreendo, pelas suas limitações...Era uma mulher com sérios problemas emocionais e talvez até tenha tido essa depressão que eu sinto hoje, e que naquele tempo não foi detectada...Angústia, dor no peito, choros sem explicação, melancolia...quem sabe sentia tudo isso e não tinha com quem se abrir  e talvez nem soubesse explicar?

Bem, lembrar o passado nos faz  re- vivê-lo. Lembrar o quanto fomos felizes, mesmo passando por momentos infelizes durante a vida, nos faz avaliá-la e redimensioná-la. Serve de conforto e também de consolo.
Traz-nos ao rosto um sorriso doce de saudade e nos momentos de tristeza, nos lembra que a menininha sorridente sempre estará lá, esperando que a despertemos para que nos sorria de volta e nos mande um beijo envolto em delícias em meio às brumas do passado...

17 comentários:

Lia disse...

Oi, Glorinha
Vi que vc leu Mil Dias na Toscana, eh bom? Eu trouxe do Brasil esse e Mil Dias em Veneza, mas ainda nao li..bjs

Glorinha L de Lion disse...

Oi Lia, eu adorei! Não li Mil Dias em Veneza, mas esse é uma delícia, recomendo! beijos,

Vicentina disse...

Olá querida, linda vc em todas as fazes da vida.
Aceita os parabéns atrasado? Ano passado não esqueci o dia do seu aniversário, e este ano com tantas coisas que aconteceram, passou em branco.
Desejo a vc amiga, tudo de bom, que esta nova idade, te traga muitas felicidades e grandes realizações.
Seja cada dia mais feliz.
Ó tem sorteio la no blog.
Bjs

Palavras Vagabundas disse...

Glorinha, você foi uma criança lindinha, rs
Eu gosto de ver fotos e de lembrar o passado, mesmo com seus percalços, mostram que eu vivi!
bjs
Jussara

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Você é bem mais jovem q minha mãe, mas a história é parecida: minha mãe tb foi a caculinha, minha avó teve ela com 40 anos.

Sabia que nenhum médico quis tratar a minha avó na gravidez, pq ela era, além de japonesa, uma "velha indecente e prevaricadora, por engravidar em idade avançada". Até um padre veio brigar com minha avó, por ela ser "mau exemplo". Ouviu um sermão a véia, coitada, nem entendia português mas teve que ajoelhar e tudo, hahaha

Minha mãe nasceu com parteira mesmo, não teve jeito.


Glorinha, suas fotos de criança são encantadoras. o sorrisão, o jeito de sorrir que vc mantém até hj. esse sorriso escancarado, receptivo, fraternal, sorriso que abraça o amigo, é lindo isso.

sua avó devia ter sido uma mulher incrível

bjs e bom dia

manuela baptista disse...

bonita, Glorinha

a história da sua vida!

um beijo

manuela

Glorinha L de Lion disse...

Vice, meu docinho de côco...é claro que aceito, afinal ainda não se passou tanato tempo assim e acontece da gente esquecer mesmo...Obrigada querida, sei que é sincero o seu desejo de que tudo dê certo pra mim! Grande beijo,

Glorinha L de Lion disse...

Com certeza Ju...Somos um somatório de tudo o que vivemos, tb gosto de revisitar meu passado para entender o presente, beijão,

Glorinha L de Lion disse...

Oi Alê, coitadinha da sua avó, quanto preconceito junto! Deve ter sofrido muito mesmo! E vc tocou numa coisa que não me ocorreu e agora que falou, fiquei pensando...Pode ser que minha mãe tivesse esse tipo de "vergonha" por já ser considerada madura e estar grávida...e católica do jeito que era...Coitada! me deu ainda mais peninha dela, agora que vc falou nisso...Naquele tempo o preconceito e a satisfação aos outros era o que regia a vida das pessoas...Pobres coitados! Beijos,

Glorinha L de Lion disse...

Obrigada querida Manuela, penso que toda vida humana dá uma boa estória, beijos,

Beth/Lilás disse...

Glorinha,
O que o Alê disse aí em cima é bem pertinente, pois até eu que tive filho com 32 anos já me achava velha nos ano 80, imagino a sua mãe.
Eu adoro fotos antigas, preto e brancas, pena que as poucas que tenho não estão comigo, ficaram com a minha mãe e hoje com minha irmã, mas quando vou lá gosto de rever.
beijos, cariocas

Glorinha L de Lion disse...

Oi Betita, foi sim. Tem tudo a ver isso que ele disse...Imagina, uma quase quarentona de barrigão...deviam achar isso um absurdo! Como uma mulher dessa idade ainda faz sexo? Imagina o que os padres falavam pra ela? Bem, mas eles tb diziam que não podia evitar, né? Só na tabelinha....que horror! Beijos,

Lia disse...

Obrigada, Glorinha! Bjs

Lia disse...

Ah, passa la no meu blog; estou voltando a postar!

selma disse...

Oi amiga convido você para um cházinho e ler a entrevista que o chá da tarde fez a poeta escritora Vóny Ferreira sobre seus livros,
beijinhos

Paula Pacheco disse...

Oi Glorinha, menina como vc lembra de coisas quando era pequena, minha irmã costuma ser assim, ela lembra de fatos que se fosse eu, jamis lembraria. Minha avó materna que se foi, também lembrava de vários momentos de sua vida junto com o da minha mãe, cada causo, era muito bom.
bjs pra vc amiga
Paula

LILIANE disse...

oi Glorinha.
interessante,
minha mãe me teve com quase 40 anos e era muiiiiiiiiiiito católica também.
Realmente, agora lendo vc, o Alê e a Beth me dei conta: existia mesmo uma vergonha por se estar grávida nesta idade, porque ficava claro que elas estavam tendo vida sexual ativa.
Ah Glorinha, que vontade de pegar este medico e dar uma coça nele.
Safado.
Falar isso pra sua mãe, tadinha, já tão fragilizada.
e pior que ainda existe gente biruta assim
mas o importante é que vcs tiveram tempo para viver bem, ela curtiu os netos e hj vc tem consciencia dos problemas com uma visão mais ampla e madura.

vamos levando a vida da melhor maneira né.
beijo e boa semana.