Desenho de Norman RockwellAproveito o silêncio da noite quente. Só eu estou acordada, com meus cachorros deitados à minha volta, respirando ruidosamente na quietude da casa...
Eu e meus pensamentos. Lembranças de um outro tempo, de outros dezembros...quando tudo me parecia tão mágico, tão possível, tão feliz...
Eu adorava o Natal, esperava ansiosa o dia em que meu pai buscava no porão do edifício onde morávamos, todas aquelas maravilhas cintilantes, guardadas em caixas de papelão, o ano inteiro
afastadas do meu olhar de criança: as lampadazinhas em formato de lanternas japonesas ou gordos papais noéis, as bolas coloridas, simples, se comparadas às de hoje, mas que pra mim, eram tão belas como as mais raras jóias de um tesouro, o cordão de lâmpadas em forma de castiçal que meu pai, meticulosamente, pendurava desde o alto da árvore, fazendo com que desse a volta em toda ela, pra que ficasse inteirinha iluminada...Como meu pai amava o Natal!
E eu, sua duende ajudante, prestimosa, carregando grandes caixas com bolas, ou as pequenas, com as figuras do presépio...cuidadosa, com medo de deixar cair e quebrar, tão preciosas relíquias que já existiam desde antes de eu nascer...
Me lembro de ver, depois, a árvore toda iluminada, de ficar parada olhando, com meus olhinhos de criança, sem pestanejar...como era linda a nossa árvore! Nunca tinha visto uma tão linda como a nossa! Nem era grande, mas pra mim, era do tamanho exato da minha felicidade....
O Natal estava chegando! ela parecia me dizer todos os dias...e, ao cair a noite, minha mãe a acendia e o pisca pisca piscando, as lanterninhas coloridas todas acesas, os barrigudos papais noéis pendurados, me faziam ficar horas olhando cada um, um diferente do outro...quanto encanto, quanta magia!
Um mês antes do Natal, meu pai plantava alpiste pra fazer o capinzinho onde ficava a manjedoura...nosso presépio era lindo, pois meu pai era muito habilidoso e fazia até um laguinho com patinhos minúsculos nadando...e uma estrela, com lâmpada azul e tudo!
E então, num dezembro, quando fui buscar com meu pai as minhas amadas caixas do Natal, ao pegá-las, meu pai viu que estavam úmidas. Cupins! Os cupins tinham comido o fundo de papelão!
As bolas, perderam toda a sua casca colorida, as lanternas, desbotadas, os fios devorados e da pobre árvore, nada tinha sobrado a não ser uns galhos sem folhas.... E o presépio? Dele sobrou muito pouco da tinta, acho que os malditos bichinhos tinham uma preferência toda especial por tinta de enfeites natalinos. Pouca coisa sobrou que tivesse alguma cor, mas acho que alguém deu uma pintada de leve depois, e aproveitou as figuras assim mesmo. O gesso das figuras, nuas, sem cor, despidas de sua aura de encantamento, foram um choque na minha credulidade.
Como chorei! Chorávamos eu e meu pai, sem acreditar no que estávamos vendo. Me lembro muito bem de meu pai olhando aquilo tudo, comprado com sacrifício há tantos anos e, desolado, chorar...Acho que foi a primeira e única vez que vi meu pai chorar...acho que ele chorava por ele e por mim...por minha decepção, minha tristeza, pois eu era seu duende ajudante, só eu, gostava tanto do Natal quanto ele...
Naquele ano, outra árvore foi comprada, mas as bolas usadas foram as que sobraram dos cupins... todas brancas, sem cor, desbotadas, com um ou outro resquício do vermelho ou azul original...ali entendi que meu pai não tinha dinheiro pra comprar tudo novo...Pelo menos, não tudo de uma vez...
Não éramos pobres, mas antigamente as coisas não eram fáceis pra quem tinha 3 filhos...
Então, tive que me contentar com minha árvore pobrinha, tão distante da beleza da "minha" árvore dos anos anteriores...cintilante, cheia de luz e cor...
Foi um dos episódios mais tristes da minha infância e, me marcou muito, pois sempre que me lembro da minha tristeza, e, principalmente da tristeza de meu pai, que, coitado, sabia que não poderia nos dar outra árvore como aquela, eu choro...
Depois cresci e nunca mais falamos sobre isso. Quando tinha 15 anos, meu pai morreu...
A vida passou, casei, tive meus filhos e sempre amei Natal, mas de uns anos pra cá, não sei o que acontece, vai chegando essa época, começo a ficar desanimada, não tenho mais paciência pra comprar presentes, e me obrigo a montar a árvore só pra que a tradição não se rompa.
Talvez, no dia em que tiver netos, volte a gostar de enfeitar a casa...
Mas, a decepção, a tristeza, a desesperança que esse episódio trouxe à minha vida de criança deixaram sua marca...talvez porque tenha sido a primeira vez em que fiquei cara a cara com o que nenhuma criança feliz conhece até se deparar com ela: o lado sem cor e sem brilho da vida.
Ali, conheci, sem saber o nome, o que nós, adultos, chamamos de desilusão.





















































Esse selo vai junto com meu carinho pra todas vocês!





























































