quinta-feira, 26 de maio de 2011

Palco

Me pego pensando, enquanto olho estas árvores, qual é o meu papel nesta vida.
Vivi, até meus quase cinquenta, como quem via uma peça sendo encenada num grande palco à minha frente. Sentada, confortavelmente, eu ria, chorava, me emocionava, me entristecia, mas não tinha noção de que aquilo era a Vida. Assim mesmo, com V maiúsculo. E que era a Minha Vida que passava diante de mim, dos meus olhos, sem que eu percebesse. Rápida, veloz, inexorável. Sem tempo para arrependimentos, sem jeito de voltar atrás para buscar algo que havia esquecido. Sem retorno.
E eis, que, numa quinta feira, como tantas e tantas vezes tenho feito nos últimos anos, me pego pensando qual é o meu papel neste palco.
Atuando, amadoristicamente, neste teatro de bufões, protagonizado por péssimos atores, todos canastrões, tentando equilibrar pratos inequilibráveis. Tentando fazer rir quando muitas vezes desejamos chorar. Tentando ser o que sabemos que não somos. Palhaços, ridículos, de pequenos dramas pessoais, de tramas rocambolescas, vestidos com roupas que não nos cabem, grandes demais ou apertadas demais...
Qual o meu papel nesta trama? Autora, diretora e atriz de meu próprio papel. Olhando através de uma lupa gigantesca para a platéia. Vejo rostos disformes, caretas medonhas, rugas, verrugas.
Pateticamente, a platéia também me vê, assiste espantada, entre gargalhadas e sustos, meus olhos esbugalhados, monstruosos, por trás das lentes de aumento. Grotescos, puro non sense.
Somos todos o que aparentamos ser? Somos marionetes, mamulengos, levados de cá para lá por mãos invisíveis?
Somos feitos de que matéria? Papel maché, madeira, carne, ossos, sonhos?
Me pego olhando estas árvores antiquíssimas e querendo ser como elas...centenárias e imóveis, assistindo à mesma peça inútil que, há milhares de anos, a humanidade encena.

31 comentários:

manuel marques disse...

"Quando um actor finalmente aprende a interpretar todos os tipos de papéis, geralmente já está velho demais para eles, e só pode interpretar alguns poucos."

Beijo.

Glorinha L de Lion disse...

Verdade amigo Manuel...restam poucos papéis agora...beijos,

Luma Rosa disse...

Se um ator não emociona, ele é apenas um objeto a mais no palco. A mesma coisa se aplica a nós, se não provocamos a vida, ela não irá interagir com nós - devemos ter utilidade para sermos mais que objetos.
Glorinha, quando do lançamento do seu livro, fiz uma chamada no blogue e você não viu. Daí seus olhos não viram, passaram batido, como se eu não tivesse dado pelota - fiz a chamada na postagem "A vida gasta-se", que de certa forma tem a ver com este seu post. Hoje fiz uma chamada para o lançamento em Niterói e vim lhe avisar, pois calha de você também não ver :D
Amore, platéia ou ator - tanto faz! Se sente alegria em viver, basta!
Beijus,

Manuela Freitas disse...

OLá querida Glorinha,

Pois a vida é um palco...todos nós tentamos representar o melhor possível os papeis que a vida nos vai dando...uns melhor outros pior...depois há técnicas, até mesmo a representação do que não se é...isto é que a sofisticação da representação...muitos vão por aí e então às vezes ouve-se «anda meio mundo a enganar o outro meio»! Voilá já te disse que La Palice é o meu citador preferido, porque ele só diz o óbvio! kkkkkkk
Beijinhos e gostei muito do teu texto!
Manu

Glorinha L de Lion disse...

Lumita, já fui lá me retratar no teu post do lançamento no Rio...vou agora, já, no de hj...obrigada querida, por seu apoio e carinho, e, principalmente, por sua amizade desinteressada e verdadeira. Acho tudo isso que disse a mais absoluta verdade: ser feliz e encenar com alma é o que importa, embora muitas vezes tenhamos vontade de não abrir as cortinas, pois somos platéia e atores deste espetáculo que é viver... beijos querida amiga,

Glorinha L de Lion disse...

Obrigada querida Manu, tens sempre algo a acrescentar, a ensinar...benditos sejam os meus amigos, benditos sejam os que os têm, beijos amiga queridíssima,

Mila Viegas disse...

Até agora eu não entendi ainda o que vim fazer nesse mundo, Guxa. E cada dia entendo menos...rs.

Beijos!

Glorinha L de Lion disse...

Nem eu Mi...às vezes penso que vim só por vir, como uma flor ou uma pedra que existem por existir...aliás, a cada dia acho mais que é apenas isso...beijos,

R. R. Barcellos disse...

- Desde cianças aprendemos a representar papéis... mas só depois de velhos sabemos os que nos revestem melhor: são os figurinos no tamanho exato de nossa alma, de nossos sentimentos, de nossas emoções. É quando podemos fingir menos e ser mais nós mesmos que atuamos melhor e mais felizes... e a platéia aplaude.

Beatriz disse...

Reflexivamente lindo!
Afinal, nesta peça da vida somos todos autores e atores...
Beijinhos minha querida
Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Glorinha L de Lion disse...

Oi Rodolfo, meu poeta, com certeza a idade faz isto por nós: nos traveste de nós mesmos quando aprendemos quem somos de verdade. Eis uma das coisas boas da chegada à maturidade, beijão,

Glorinha L de Lion disse...

Bia, minha flor viajante, pois é, nessa vida fazemos todos os papéis: mocinho, vilão, bandido e herói, somos diretores, autores, atores, fazemos comédia pastelão, dramas, levamos torta na cara, rimos e arrancamos os cabelos...e mesmo assim, passando por tudo isso, ainda assim, achamos que vale a pena viver, beijo grande querida,

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Glorinha, sinceramente?
penso assim:
concentração na peça. a Vida.

o negócio é tentar fazer o papel o "mais real possível". e não dar mta bola pra platéia não.

pq o espetáculo é meio rápido, não dá tempo pra perder com bobagens de bastidor, opinião de crítico, etc.

pegar o texto do molière e abandonar o teatrinho escolar.

tentar fazer a melhor apresentação de nossas vidas. que seja com mais veracidade e sentimento, sentir que vale cada segundo no palco.

se o público vaiar, banana pro povo, pq depois cada um vai levantar da cadeira e ir embora mesmo... e qdo a luz do palco apagar, pelo menos teremos a sensação de ter se esforçado para fazer uma ótima peça.

tentar perder menos tempo com os maus atores... nem com os que, por falta de brilho próprio, tentam apagar o nosso.

bjs e bom dia!

Vivian disse...

Bom dia,Glorinha!

Adorei seu texto!É uma reflexão tão necessária...e poucos fazem...vivem, morrem e ficam sem saber qual o papel que desempenharam...Sei que não quero ser um fantoche da vida, sou a protagonista e diretora da minha vida.Tudo fruto de escolhas conscientes! No mais...é torcer que cada um encontre o seu caminho...
Beijos pra ti!
Bom final de semana!
**Posso levar a imagem e o link do seu livro para divulgar na lateral do meu blog, o Flores e Livros?
Cultura é muito importante e merece ser divulgada, infelizmente não li seu livro AINDA, mas logo surgira a oportunidade.
Espero sua permissão.
Meu email:
macgoes520@hotmail.com

Glorinha L de Lion disse...

OI Alê meu querido, sabe de uma coisa? Tem toda razão...o pior é que tem gente que sobe no banquinho do ator principal pra poder aparecer...Geralmente gente sem talento, sem público, e sem platéia. Não vou dar cartaz a palhaço. Se ainda fosse um palhaço engraçado, com algo a dizer, uma lição a dar... mas quando é só pra chamar atenção pra si, às custas do ator principal, lixo com eles!
E muita banana...rsrsrs A Vida é muito maior do que a inveja e o ressentimento com o sucesso alheio, beijão,

Glorinha L de Lion disse...

Oi Vivian querida, é mesmo...tem quem passe a vida sem saber que papel desempenham no espetáculo que é viver, nem sequer se questionam, ou refletem. Preferem ficar dando liçõezinhas baratas, dessas que se lêem em livrinhos de bancas de jornal, filosofia de botequim...Obrigada pelo apoio ao meu livro, já te mandei tudo, tá? Beijão,

Calu disse...

Glorinha,
alguém disse que na vida não há tempo pra rascunho, tudo é "à vera", no palco, no ato...com máscaras ou de cara limpa, os tipos se sucedem;hora mamulengos, hora teatro de sombras, hora monólogos, hora revista, hora comédia, hora drama, hora poesia, e a lista segue e atrás todos nós atores e atrizes que bem ou mal procuram fazer de seus atos expressão real.
O show tem de continuar!!

Obs:deu certo pelo google chrome.Até agora.
Mil bjkas,
Calu

Glorinha L de Lion disse...

Yes Calu! The show must go on! E vamos nós, brincando de viver....beijos, que bom que conseguiu!

Lívia Azzi disse...

Viver não tem sentido, nós sabemos, mesmo assim queremos atribuir algum significado para nossa existência, tentamos encaixar peças desconexas, nos preocupamos com bobagens sem fim, permitimos nos magoar por pessoas que não merecem um pingo da nossa atenção, gostamos de pessoas que nem ligam para nós, deixamos o tempo passar e esquecemos de contemplar o mistério das árvores, a brisa dos ventos, o pôr do sol.

Deixamos de participar dessa sintonia da natureza para desempenhar um papel numa peça que nem sempre é aquela que arrepia nossos poros e alimenta nossa alma. É triste, mas essa é a verdade. Ainda bem que podemos nos perder pelo caminho, e com sorte, reencontrar um novo passo e inventar algum sentido para a caminhada.

Texto muito profundo e provocativo, Glorinha!

Beijos...

Glorinha L de Lion disse...

Oi Livinha, teus comentários sempre vêm acrescentar. Concordo com tudo, tudinho o que disse...Acho que a grande sorte nisso tudo é encontrar gente em sintonia com nossos pensamentos e ideias...Só isso já vale a pena e nos ajuda a entender, no compartilhamento, essa grande encenação que é a Vida! Beijo grande,

Fernanda disse...

Realmente e noutras palavras a mesma mensagem...
Transmissão de pensamentos ou mera constatação de factos!!!

Amiga Glorinha, " Life is a Cabaret, old champ, (welcome) to the Cabaret"

Tu a chegares aos 5enta e eu aos 6enta :)))

Grandes reflexões.
para mim diferentes em tudo de quando era uma teen assustada com a ideia da morte e do que tinha vindo fazer a este Mundo.

Hoje, sem medos mas ainda sem a resposta.

Beijinho

manuela baptista disse...

quem sabe
com que sonharão as árvores

com a matéria dos homens?

Pinóquio era de madeira e apenas desejava ser um menino de verdade

eu penso que nós não somos o que aparentamos ser

obrigada Glorinha, pelas sua reflexões!


um beijo

manuela

Glorinha L de Lion disse...

OI querida Ná, pois é, as questões permanecem, as respostas nunca serão dadas, mas é uma grande alegria encontrar pensamentos afins, pessoas da melhor estirpe em sintonia conosco. Esta é uma das minhas grandes alegrias atualmente... sentir almas sintonizadas no mesmo dial que eu...seja nos 5nta ou 6nta...rsrs Somos todas iguais na essência, Beijos,

Glorinha L de Lion disse...

Querida Manuela, tb eu penso assim...não somos o que mostra a casca...o mundo onde habitamos é muito mais profundo do que uma mera aparência ou a roupa que vestimos...Penso que as árvores têm muito a nos ensinar...Beijos queridoca,

Lúcia Soares disse...

Glorinha, falaria mais ou menos o mesmo que o Alexandre e a Lívia.
Acrescento: não acho que viemos para nada, nem que a vida não tem sentido. Tem todo sentido: viemos mesmo pra essa emoção de sentimentos, tudo junto e misturado, pois somos de uma matéria prima chamada "insatisfação".
Viemos para tudo isso: alegrias, tristezas, crescer, procriar (ou não), ver a vida renascer em cada filho, em cada neto.
Não acho que tudo termina aqui e nem que todos sejamos canastrões.
Cada um tem seu papel e o desempenha bem ou mal, depende da disposição.
Entendo perfeitamente suas questões, que também são as minhas (muitas, muitas) mas acho que,no fundo, o saldo da vida é sempre positivo.
Não podemos nos deixar derrotar pelos inimigos, que muitas vezes existem apenas na nossa imaginação.
Enfim, é assim: gostaria de falar o mesmo que você, mas gostaria que alguém me desse sempre forças para acrditar que pode ser diferente (como tento fazer agora, aqui).
Difícil, né? rsrs
Beijo!

Ana disse...

Adorei o seu texto! Boa reflexão.
Beijinho.

LILIANE disse...

Glorinha

tem horas que me sinto a dona do espetáculo, poderosa, cheia de inspiração e as vezes por tão pouco ou até com minhas razões, acabo perdendo a tranquilidade, que me traz muito sentido pra viver um dia de cada vez.

Acho que o Alexandre falou mesmo acertado e a Livia também quando disseram das vezes que a gente se importa tanto com os outros.

Perda de tempo...

Afinal se a gente não gostar do nosso espetáculo, não adianta uma multidão de pessoas aplaudirem.

bacana ... gostei de refletir por aqui.
tava com saudade desse cantinho bão.rs

Glorinha L de Lion disse...

Concordo Lúcia, o saldo é sempre positivo sim! O importante é continuar no palco, encenando drama ou comédia, não importa, mas com amor pelo que fazemos, beijos,

Glorinha L de Lion disse...

Obrigada Ana, beijos,

Glorinha L de Lion disse...

Oi Lili, verdade. Como eu disse antes, o que importa é continuar com o espetáculo, haja platéia ou não, importa é fazermos o que gostamos e não se importar com a crítica, né? beijos,

ana disse...

Glória,
Descobri hoje seu blog, Parabéns!
O livro será, após o lançamento no MAC, vendido em livrarias?
Hoje acordei pensando nos meu 50 anos, o que fiz, o que farei daqui para frente....E eis que me deparo com seu blog!
Sucesso e muita alegria no dia 03/6
Ana