quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Há Muitos Verões Atrás - Bairro das Laranjeiras II

Tirei essa foto ontem da varanda do quarto do meu filho, um céu de verão, com todas as cores possíveis a um céu de dezembro...com passarinhos e cigarras cantando, como se um coral celeste saudasse a Natureza, que nos deu de presente, esse anoitecer...
Continuo hoje com minhas lembranças de Laranjeiras, pois recebi alguns comentários que me empolgaram a escrever um tantinho mais sobre esse bairro carregado de História...
Quando moramos num lugar ( acho que isso acontece até com os romanos ), não nos damos conta, ou melhor, nos acostumamos com sua beleza, sua história, suas estórias...a banalidade do dia a dia, faz com que acabemos por não dar a verdadeira importância ao lugar onde nascemos.
A Bica da Rainha é um desses recantos que só Laranjeiras tem...era uma nascente onde Carlota Joaquina ia, frequentemente, por recomendação médica, beber suas águas terapêuticas, visando a cura de seus problemas de pele ( que, com certeza, não devia ser nenhuma doença, e sim, falta de banho...) e, ainda levava D.Maria, a Louca ( pobre coitada, era depressiva e sem tratamento acabou maluca...).
O Palácio Guanabara, do qual já falei ontem, escritório de luxo do governador...atrás dele, há um jardim exuberante...e ele fica coladinho à sede do Fluminense...


A Casa dos Abacaxis, linda casa que pertenceu aos pais da crítica teatral Bárbara Heliodora, com abacaxis nas sacadas...hoje é tombada pelo INEPAC. Fica no Cosme Velho.
Laranjeiras e Cosme Velho são repletos de História e realmente valem a visita, fugindo um pouco do circuito turístico tradicional.
Mas as minhas lembranças me levaram a pensar nas minhas escolas: José de Alencar, Rev. Álvaro Reis e Albert Schweitzer...Não poderia haver espaço mais democrático que as Escolas Públicas da época...como falei ontem, meus amigos e amigas eram das mais diversas camadas sociais...e só das mais íntimas sabíamos as origens...ninguém falava se era filho de fulano ou beltrano...isso não interessava à nós, crianças...ninguém era amigo de alguém por sua classe social ou posição dos pais...eu mesma, tinha uma grande amiga, Tânia, cujo pai era dono do Cinema Azteca, que ficava no Catete.
Nas férias, ele fazia uma sessão pra toda a garotada da escola, que ia na maior alegria ao cinema, muitos pela primeira vez, muitos só daquela vez no ano inteiro...nem me lembro do sobrenome dela, tão pouco isso era importante pra mim...
Isso é uma coisa que me incomodou muito, assim que vim morar em Niterói e, que aliás, me incomoda até hoje...todo mundo que nasceu aqui, só se refere aos outros como: filho de fulano de tal, neto de sicrano...como se todo mundo tivesse pedigree, e quem não fosse daqui, era olhado com certo desdém, afinal, não era de nenhuma família conhecida...como se todos da cidade tivessem sangue azul ou nobre...e como se isso , se fosse verdade, tivesse algo a ver com caráter...Niterói, por sinal, era, antes da fusão com o Rio, uma grande e inchada repartição pública, disfarçada de cidade...onde muita gente "se fez", graças à extinção do Estado da Guanabara...mas isso é outro assunto....
Acho de um esnobismo antipático, aliás como todo esnobe, e sem motivo...mas, nem por isso deixo de gostar dessa cidade como se fosse minha...

Outra grande amiga de infãncia e de escola, antes e depois que voltou da França : Ângela **, dessa sei o sobrenome porque era minha vizinha, morava no prédio ao lado do meu e víviamos uma na casa da outra e seu pai, já famoso na época, foi um dos físicos mais conhecidos mundo afora. Foi dela a primeira boneca Barbie que vi na vida, que ela trouxe dos EUA...linda, peituda...E eu, com minha Suzi, com corpo de adolescente, achava aqueles peitões turbinados, o máximo!
Aliás, isso me levou à outra estorinha...uma vez, fomos eu, ela, seu irmão Sílvio, que implicava comigo o tempo todo...( acho que tinha ciúmes dela ), seu irmão mais velho e seus pais, ao Zoológico. Naquele tempo, ainda não existia camelô, mas na porta do Zoo, tinha um homem vendendo uns macaquinhos que se movimentavam conforme se puxavam as cordinhas que prendiam suas pernas e braços...era uma graça...Pois eles compraram um pra ela e...nenhum pra mim!
Nós devíamos ter uns 6 anos naquele tempo...podem imaginar minha tristeza e decepção?
Me lembro que tive muita vontade de chorar...mas, como sempre, meu sangue calabrês falou mais alto, e fingi que nada tinha acontecido...tenho a foto até hoje, ela com o macaquinho e eu, sorrindo!
Que maldade, como alguém tem coragem de fazer isso com uma criança de 6 anos?
Bem, por hoje chega...quanta coisa uma lembrança vai puxando...se eu não parar agora, vou escrever uma bíblia...quem sabe um dia não me animo e escrevo: A Bíblia da Glorinha...garanto que nessa, as estórias seriam verdadeira...rsrsrsrs....um lencinho pra enxugar o veneno, please!
P.S. Aliás, Ângela, Tânia, todo mundo que estudou comigo ou foi meu amigo de infância e adolescência, e tiver lido meu blog, entre em contato comigo...adoraria me encontrar com vocês! Beijão!





9 comentários:

Beth/Lilás disse...

Oi, Glorinha!
Este seu olhar e lembranças sobre as escolas públicas do Rio naqueles idos de 60, é puramente verdadeiro, pois nós éramos todos iguais ali dentro, não tinha essa de "meu pai é isso e minha mãe aquilo". Era o lugar mais democrático e coletivo e que fazia a sociedade carioca ser o que era - bacana e sem preconceitos.
Mas, hoje, nem nas escolas públicas de todo estado há um pensamento como este, acho que até entre os pobres há competição de quem é mais ou menos hoje em dia.
E por isso, vivenciamos tudo isso de degradante que está por aí.

Não quero nem me alongar, senão não vou parar nas minhas lamentações.

O Rio é ainda uma cidade que instiga a todos os povos deste Brasil, pois sua beleza natural é incontestável, para todo lugar que se olha tem beleza e história.
Uma pena estar nas mãos de gente que governa sem amor ao estado!

grandes beijos cariocas

manuel marques disse...

Recordar é viver.

Abraço.

*** Cris *** disse...

Oi,td bem?
Adorei o título do seu blog que já é um convite para sentar e conversar, é gostoso relembrar, pois como dizia um poeta "Lembrar-se é viver outra vez".
Bjs!

Silvana disse...

Oi Glorinha!

passando para dizer que seu texto e suas lembranças são tão ricos que nos remetem àquele tempo...

Tenha um lindo dia!

Beijooo

Cucchiaio pieno disse...

Querida Glorinha, esta foto que voce tirou do quarto do teu filho parece uma pintura, ficou linda!
Que belos momentos voce viveu, embora foi muito triste voce, com apenas 6 anos, ter se controlado pra nao chorar pela falta de sensibilidade dos pais da tua amiga - e ainda saiu sorrindo na foto! So' voce mesma Glorinha!
Bjos
Te adoro
Léia

welze disse...

oi lindona. que delícia ler suas crônicas. escreva mesmo a Bíblia da Glorinha. Garanto que essa lerei e relerei pela vida toda. será o meu livro de cabeceira, de braço de sofá, de bolsa. terei uma em cada lugar onde gosto de ler. Que lindas essas fotos. Alguns lugares conheço, estive com meu bonitão, em nossas muitas viagens para o Rio. Um pedido. Meu bonitão adora o mercado de peixes de Niterói. Acho que é São Pedro. Quando puder, poste uma foto desse lugar para eu mostrar a ele. Se der certo, se não, não se preocupe. Beijões querida.

Mariangela Ragassi disse...

Olà Glorinha
Como sao belas essas lembranças...
Parece que cada dia da nossa infancia corresponde a cem dias da nossa vida de adultos, nao é mesmo?
Faz bem lembrar desses tempos para reacender aquele brilho nos olhos que tinhamos diante da vida. Dà um calorzinho tao bom no coraçao...
Quando tiver um tempinho, tem um selinho pra vc no meu blog.
Beijos

Vice disse...

Muito bom Glorinha, adorrei as fotos, só fiquei triste com seu relato do macaquinho, que compraram pra sua amiga e pra vc não, ainda bem que vc já era forte apesar dos seus 6 aninhos.
Bjs

Amara e Rozani Pereira disse...

Oi Glorinha!
Amei a foto que vc tirou.É de tirar o fôlego!Eu tb ñ sou de Niterói,e a cidade onde eu nasci é muito diferente daqui.Como é bonito Laranjeiras.Eu ñ conheço direito.
É tão bom recordar coisas boas que agente passou.
bjs,Rozani