quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Homenagem

Ontem, dia 6 de janeiro, seria aniversário de meu pai e, hoje, pois já é meia noite, dia 7, aniversário de minha mãe...
Sempre comemorávamos o aniversário da minha mãe à meia noite...pois geralmente mamãe fazia uma festinha ou um jantar para o meu pai e ele, fazia questão que eu e meus irmãos, déssemos o presente a ela, meia noite em ponto.
Se fosse viva, minha mãe faria 90 anos hoje. Meu pai era dois anos mais velho.
Como já contei aqui antes, meu pai morreu aos 56 anos...muito novo, mas, fumante inveterado, teimoso, depois de vários infartes e edemas pulmonares, continuou fumando escondido. Morreu em casa, sentado na cama...e eu, nunca vou me esquecer desse dia, pois, querendo consolá-lo na sua agoniante falta de ar, esperando a ambulância que nunca chegava, olhei pro céu e vi a noite tão linda, com uma lua cheia tão brilhante, que falei as últimas palavras que disse a meu pai: Pai, está uma noite tão linda lá fora...
Eu, na sensibilidade e inocência dos meus 15 anos, achei, que naquele momento, aquilo poderia consolá-lo... Por que não o abracei, não o beijei, porque?
Depois disso, não consegui mais entrar em seu quarto, nem vê-lo morto...não fui ao enterro...me recusei...minha mãe, coitada, pra me proteger, me mandou pra casa do meu irmão, já casado na época. Então, eu não vivenciei a dor da perda, a dor de minha mãe com duas filhas para criar, sendo que eu, ainda uma adolescente...Hoje penso como a pobre deve ter sofrido, sem trabalhar fora, tendo vivido a vida toda, para a casa, para o marido e os filhos...de repente, se ver sozinha, sem amparo...como deve ter se sentido só e desesperada. E ainda jovem, com 54 anos.
Minha mãe foi uma mulher muito bonita, morena, de corpo lindíssimo, mas uma pessoa com muitos problemas emocionais...Hoje vejo que o que ela tinha era depressão, mas, naquele tempo não se procurava psicólogo, muito menos psiquiatra, então, sublimou-os todos, se voltando para a religião. Talvez essa minha ojeriza desde pequena, por todas as igrejas, por todas as formas de repressão, seja por causa disso...
Minha mãe era uma católica ferverosa, vendo pecado em tudo, mas apesar disso, foi uma boa mãe...comigo, foi muito carinhosa, sempre preocupada com minha saúde, pois sou asmática desde pequena, e, sempre me ajudou muito, apesar de suas limitações.
Meu pai, me lembro tão pouco dele...mas lembro de sua risada imitando o Popeye, que ele gostava de fazer pra mim e eu, adorava ouvir...Me lembro de seu amor pela leitura, pelos livros, amor esse, que nos deixou de herança... meu pai foi também, um homem extremamente honesto e íntegro...Trabalhou na Caixa Econômica, sempre em cargos de chefia, durante 30 anos e era tanto amado quanto detestado, pois era extremamente exigente com seus funcionários. Nunca aceitou suborno ou qualquer tipo de desonestidade. Ele abominava essas coisas...Acho que eu e meus irmãos temos muito dele, dessa coragem e integridade.
Outra coisa que nunca esqueci: jamais mentir. Ele odiava mentiras e nós também, sou assim até hoje. Prefiro a verdade que doa do que a mentira que entorpece...mentir é igual a uma droga pesada, depois que se começa, não se consegue mais parar.
São tantas e tantas as coisas que aprendi com meus pais... O que sou e até o que não sou, devo a eles.
Ficaram casados por mais de 30 anos, tentaram fazer cada um ao outro feliz, lá à maneira deles...e morreram no mesmo mês, em maio. Meu pai em 1973 e minha mãe em 2000.
Hoje, já não tenho mais os dois, não tenho mais o colo, o abraço, o porto seguro, que tantas e tantas vezes na vida procurei e não achei mais.
Nem pensei que isso mexeria tanto comigo, mas estou escrevendo isso, chorando tanto, que por vezes, nem vejo o teclado, então, me perdoem se porventura não escrevi tão bem assim...foi a emoção...
Hoje, quis homenageá-los com minhas lembranças, algumas não tão doces como gostaria, mas todas, com uma imensa, incomensurável saudade.


22 comentários:

Beth/Lilás disse...

Glorinha,
Quando li teu comentário lá pelo meu cantinho, senti que precisavas de colo e vim aqui no teu recanto para lhe dar meu apoio, mesmo sendo tarde da noite. Muito triste a gente não ter nossos amados pais por perto! Eu também já não tenho meu pai, mas a mãe tenho e morro de medo de perdê-la, trato-a como um cristal, já está velhinha.

Sua homenagem será sentida por eles através das vibrações de amor que colocou nestas palavras, todo este sentimento inesquecível. Eles devem estar piscando no céu agora como duas estrelas brilhantes.

Vida e Morte caminham lado a lado, lembra do filme A Partida?
Para nós é muito difícil encarar as perdas, encarar o sumiço da pessoa amada.

Como consolo, deixo um abraço apertado e fraterno.
bjs

António Rosa disse...

Glorinha

Como a compreendo. É uma partilha linda e que certamente serviu para a aliviar mais um pouco de uma dor que se transporta.

Abraço de solidariedade.

Silvana Nunes .'. disse...

alve o NOVO ANO !
Que ele seja de PAZ e de muita Saúde. E que estejamos juntos por mais um ano.
assim Seja !
Olá, como vai ? Estou aqui para divulgar um pouco da minha cultura, a história de nossos antepassados ( que amo muito e tenho receio que se perca em meio a essa enxurrada de informações que somos acometidos ultimamente) e, para isso, FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... começa o ano contando um pouco sobre esse espetáculo maravilhoso que é a FLOLIA DE REIS ou REISADO, comemorado no dia 6 de janeiro. Aqui eu também coloco as famosas simpatias das Romã, muito utilizada no dia 6 de janeiro para atrair dinheiro. Para quem curte uma simpatia, vale a pena fazer.Venha conferir.
E para quem não conhece o meu espaço, convido a dar uma chegadinha até lá para conhecer o meu cantinho de histórias, o link está logo abaixo.
Que os bons ventos soprem a seu favor neste ano de 2010.
Saudações Florestais !
SIGA-ME em : http://www.silnunesprof.blogspot.com

Cucchiaio pieno disse...

Que bela foto! Minha mae, meu pai e meu padrasto fazem aniversario na mesma semana - hehehe!

Realmente teu pai faleceu muito jovem. Muitas vezes arrependemos do que nao fizemos e isto machuca o coraçao, o melhor a fazer é relembrar os bons momentos, né?! E estes estao bem vivos na tua mente, percebo pelos detalhes que nos deixa.

Adoro tuas descriçoes e emoçoes.
Bjos
Lèia

Cris França disse...

Bom dia minha querida, li emocionda sua homenagem, chorei, pois como sabes minhas perdas são recentes e meus pais tinham uma foto dessa, pode ve-las aqui
http://cantodecontarcontos.blogspot.com/2009/07/eramos-seis.html

e olhe que coisa é a vida, eu nasci em maio de 1973


mas entre perdas e ganhos é que nos tornamos que somos e onde quer que seus pais estejam eles te olham e dizem, olhem a Glorinha, nossa pequena, que orgulho!

bjs!

Paula Pacheco disse...

Linda lembrança ...acho que até uma homenagem ao seus pais, adoro escutar historias dos pais, avos etc...fico pensando como seria naquela época, ele se foi tão cedo né Glorinha. Sabe o pai do Paulo, meu esposo, morreu quando tinha uns 42 anos e deixou 8 filhos para minha sogrona cuidar, nesta época ele tinha 2 anos, era o caçula. Ela foi uma guerreira e tanto...
bjs
Paula

welze disse...

Sinta-se abraçada. Por inteiro, minha menina

Maria Lúcia disse...

...Meu comentário chegou aí?
Parece que alguma coisa deu errado.
Beijos.

Giovanna disse...

Sem palavras Glorinha. Que linda história. Que herança valiosa deixou os seus pais para vc. Bjs

Manuela Freitas disse...

Olá Glorinha,
Um momento de memória emocional, um momento muito teu e um desabafo que me contagiou e me fez lembrar também os meus pais. Chorar faz bem e bem precisamos de quando em quando de chorar, chorar por muita coisa e também por essas perdas irreparáveis, que sempre andarão connosco, com o bom e o mau que elas comportam, nada é perfeito e muitas vezes só mais tarde compreendemos, que os nossos pais não eram perfeitos, mas fizeram por nós aquilo que ninguém mais fez. (Falo por mim)
Já podes quando quiseres ir ao LIGHT, voltei a abri-lo, as saudades estavam a apertar demais.
Já visitei o blogue da tua filha.
Couchsurfers, é uma organização que faz intercâmbio entre pessoas de países diferentes, trata-se de ceder gratuitamente, pelo menos o sofá-cama, para as pessoas dormirem e conhecerem a cidade, não é evidentemente a qualquer pessoa.
Beijinhos,
Manu

manuel marques disse...

Lindíssima homenagem.

Beijo.

Vivi disse...

Oiiiiiiiiiiiiiiii
Estávamos sem internet...e eu aflita em saber novidades de seu filho... mas fiquei satisfeita qdo vi seus postsa anteriores e o bom filho retornou!!!!! que bommmmm....
Minha querida amiga...realmente como ficamos angustiadas hein!!! ... mas é o amor!!!!
e por falar nisso...que foto maravilhosa de seus pais...tb tenho uma assim dos meus, escanearei pra te mostrar...
li e me emocionei com suas palavras!!! realmente vida e morte andam juntas....dor passa? acho que não...desde que perdi o meu pai sinto como se fosse ontem...e em certas ocasiões a "ferida" se abre novamente e dói muito!!!!!
mas a vida segue em frente e assim temos que ir...sempre em frente né!!!!
Um abraço meu pra ti...bem apertado viu!!!!
com carinho
bjos

Maria Lúcia disse...

Oi Glorinha! Vim conferir o meu recado, mas não chegou.
Lindos e elegantes os seus pais!
Sinto muito por você.
Gostaria que me enviasse o seu e-mail.
Um abraço.

Silvana disse...

Oi minha querida...

Bem que estranhei sua ausência no meu blog hj e vim correndo saber o q ue tinha acontecido...

Vc pode acreditar em mim: SIM, EU TE ENTENDO!

Eu sei o tamanho da sua dor e a saudade dele que sempre sentiu. E imagino a falta que ele lhe fez em todas as passagens importantes de sua vida: faculdade, seu casamento, o nascimento dos seus filhos, a casa nova, o carro novo...

Cada conquista que alcançamos é a eles que queremos mostrar não é mesmo? Queremos sempre que eles se orgulhem de nós, que saibam que valeu a pena a criação que nos foi dada.

Qto a esse lado da sua mãe, uma pena. Meus pais sempre foram distantes da religião. Aliás, meu pai foi coroinha e amava a igreja católica. Um dos meus irmãos tem um padre como padrinho. Minha mãe cantou por anos em coro de igreja.

Mas depois um um padre do nosso bairro engravidou uma mulher casada e virou um reboliço, nunca mais meus pais pisaram numa igreja (com exceção de casamento de filhos e batismo de netos). Isso aconteceu eu deveria ter uns 9 anos... Então mal me lembro deles orando ou algo do tipo.

Meu pai sempre foi devoto de Nossa Senhora Aparecida, assim como minha mãe. Tinham as imagens, acendiam velas, etc. Minha mãe ainda o faz com maior carinho. Mas só: isso é o máximo de manifestação que presenciei minha vida toda.

Eu imagino o sufoco que vc passou com sua mãe assim. Ainda mais sabermos que era tudo de fundo emocional, sem diagnóstico competente. Vc foi muito sufocado e entendo, agora, sua avesão à religião.

Mas qdo a gente desabafa, a gente se entende melhor, vai matando os dragões, exorcisando o que não presta. Vá falando, escrevendo, chorando... é assim mesmo que conseguirá se acalmar, querida.

Tenha sempre meu imenso afeto e respeito.

Beijoooo

PS: mês que vem papis faria aniversário e postarei a foto dele qdo se casou: ele usava o mesmo bigodinho do seu pai...rs. Eram parecidos, viu?

Amara e Rozani Pereira disse...

Oi Glorinha!
Deve ser muito triste perder os pais.
Mas vc tem boas lembranças e seus pais te ensinaram muitas coisas bacanas.Pai e mãe é uma referência pra vida toda.Uma vez minha tia falou, que quando perdeu a mãe, ela se sentiu como se fosse criança, sem proteção nenhuma.
Fique bem. As vezes agente se sente muito triste e com muita melancolia.
Bjs,Rozani

SUELY PERES disse...

Ola amiga, agora é exatamente 2:32 hs da madruagada, e eu aqui sem sono, marido em SP, filho dormindo, solidão danada, pensamentos, lembranças e aabei aqui no seu blog e lendo esse desabafo emocionante foi a gota para eu botar pra fora também minha dores, porque esse mes no dia 26 minha maezinha também faria aniversário, completaria 73 anos se fosse viva, e o pior é que ela foi embora 4 dias depois de completar 61 anos, então imagina como fica meu coração todo mes de janeiro...impossível não lembrar. Voce sabe, eu chorei intensamente durante 02 anos a morte dela, chorava no chuveiro todo dia para que minhas lagrimas se misturasse com a água e que ninguem me perguntasse nada,mais o tempo vai passando e temos que aceitar e é por isso minha amiga, que te compreendo, mais temos que continuar vivendo e procurarmos ser feliz porque é assim que eles querem que sejamos...qual é a mãe e o pai que quer ver um filho sofrer? então...desabafar é muito bom, e estou impressionada com tanto carinho que retornou para você imediatamente. Esse espaço é realmente maravilhoso, porque aqui encontramos amigos que dividem conosco as suas dores, nos consolam nas nossas e isso não tem preço. Minha querida, que Deus nos console em nossas recordações cheia de saudades e nos ajudem a viver com tudo isso. Um grande beijo

Luci Cardinelli disse...

Linda homenagem amiga!
Também já perdi meus pais e sei bem como se sentiu enquanto escrevia, já me aconteceu algumas vezes. Essa saudade é muito danada, né mesmo? Tem hora que dói tanto... Mas também somos felizes por termos nossas lebranças.

beijo com cafuné!!

Maria Amélia disse...

Meu Deus Tia Glória! Não tenho palavras para comentar, só para agradecer o pouco que pude conhecer a mais de meu avô e compreender um pouco mais a minha avó. Escrevo também em um teclado que quase não vejo de tanta emoção.
Obrigada por esse momento!
Te amo,
Memé

G I L B E R T O disse...

Glorinha, doce Glorinha

Perdoe-me voce... Perdoe-me voce...

Geralmente falo mais nos coments que faço, principalmente para voce, mas não consigo...

Choro agora também, por voce, e não vejo o teclado...

Choro por voce, por mim, e por todos os pais e maes que um dia partirão e partiram...

Choro pela lindeza, pela emoção e pela sensibilidade rasgada presente no teu texto...

Falei de mais, desculpe-me sair assim, quero chorar em paz!

GRato por me deixares estar sempre aqui, contigo!

cantinho she disse...

Ô minha querida! Que post lindo, sincero, emocionante e cheio de amor.
Beijinhos!

Noiva em Fúria disse...

Olá pequena sereia, agora entendo como a vida pode ser maravilhosamente perfeita, mesmo atraves do computador, suas lembranças são como as de minha mãe, Welze, como vcs possuem coisas em comum, minha avó faria aniversario agora dia 7, e como os seus, os dela já não se encontram mais por aqui, tenho certeza de que serão sempre maravilhosas uma para a outra e obrigado por gostar tanto dela.bjo

Marilac disse...

Glorinha,
Que bela homenagem!
Imagino a saudade!
Dia 6 de janeiro é também uma data marcante para nós, foi o dia em que meu avô paterno partiu de repente, ele era um homem alegre e forte, mas Deus devia ter outros planos.
As lembranças são nossos tesouros depois que nossos amados não estão entre nós.
Vamos vivendo e aprendendo a lidar com as perdas, mas sempre sentiremos muitas saudades.


abraços
com carinho
Marilac