quinta-feira, 1 de abril de 2010

As Santas Semanas Da Minha Infância...Medo - Parte 2



A chegada da Semana Santa me fez recordar retalhos da minha infância.
Primeiro porque minha mãe, uma católica fervorosa, filha de Maria, me levava com ela à igreja de nosso bairro para beijar a cruz e uma imagem em tamanho natural do Cristo morto...Como eu tinha pavor daquilo!
Havia uma fila enorme na direção do altar, onde tínhamos que nos ajoelhar e beijar um crucifixo...aquilo já me causava um nojo imenso, pois imaginava quantas bocas, salivas e babas já tinham estado onde minha boca de criança teria que encostar...
Depois, na lateral da grande nave, havia uma imagem do tamanho de um homem, de Cristo morto, ensanguentado e perfurado e eu, pobre de mim! era  levada por minha mãe, obrigada a ficar ajoelhada ao seu lado rezando, beijar e ficar olhando para aquela estátua horrenda...
Eu tinha verdadeiro horror àquilo tudo...ia quase arrastada, mas, naquele tempo, criança não tinha querer, tinha que ir e pronto! Psicologia e conversa ainda não existiam no meu tempo de criança, e eu, apesar de tudo, ainda assim berrava, esperneava, dizia que não queria ir, mas ninguém me dava bola...Um dia me recusei a beijar a tal estátua e cheguei a chorar...desse dia em diante, me deixaram ficar só ajoelhada, não precisei mais beijá-lo...fechava meus olhos e pronto: ele sumia da minha visão...
Já crescida, me lembro de certas sensações ao entrar em  igrejas...as que tinham imagens me apavoravam e ao mesmo tempo me atraíam...medo e delícia...ficava olhando as imagens esperando que piscassem os olhos para mim, ou mexessem um dedinho...eu sempre procurava um milagre, um milagrezinho só para mim, que só eu visse e ficava extasiada e amedrontada olhando as imagens dos santos...

Quando fui à Tiradentes, linda cidade histórica, pela primeira vez, já adulta, fiquei horrorizada ao saber que os cabelos das imagens eram de gente! As pessoas doavam os cabelos aos santos como forma de pagar promessas! Bizarro, patético e sinistro...
Em todas as cidades históricas de Minas Gerais, vi as mesmas coisas: santos horrorosos com cabelos humanos...E, horror dos horrores, os pisos das igrejas, de largas tábuas numeradas, são lápides, onde os endinheirados das cidades tinham o "privilégio" de ter seus corpos enterrados e colocados debaixo do piso, para estar em "campo santo", pertinho de Deus...
Apesar de toda a beleza, riqueza e arquitetura que as igrejas históricas tem, sempre me dá uma agonia enorme esse culto ao obscuro, ao mórbido que o catolicismo cultiva.
Até hoje tenho verdadeiro pavor de imagens sacras...e mesmo as de Mestre Aleijadinho, notório artista barroco, me causam aversão e desvio imediatamente o olhar...Chego a sentir até, me perdoem a franqueza, uma certa ânsia de vômito, um enjoo...
Deve ser trauma de infância...

18 comentários:

Pérola disse...

Boa tarde.
Bela postagem,ao menos é sincera e absoluta.
Vim te deixar o meu beijo e lhe desejar uma feliz Páscoa com muito amor e paz no coração.
beijokas.

Lu Souza Brito disse...

Nossa Glorinha...que visão peculiar você tem das imagens. Aterrorizante mesmo.
Meu medo era justo o contrário do seu: era que algum deles piscasse, kkkkkkk. Mas so sentia medo se por acaso ficasse sozinha. Caso contrário, nao tinha problemas.
No Catedral da Sé aqui em SP e se não me engano no Mosteiro São Bento tem também os túmulos dos seguidores da igreja que pagavam para isso, mas são expostos mesmo, protegidos apenas por um vidro. Isso realmente é muito sinistro. Eu hein, ficar vendo defundo, sai fora!

Mas fora isso, eu gosto muito do clima de igreja: me transmite paz e tranquilidade!

Barbie Girl disse...

Olá!!

Que verdadeiro sentindo da Páscoa entre em seu coração e te faça uma pessoa cada vez mais feliz!

beijos

Junia Ansaloni disse...

Glorinha, passei para te desejar uma pàscoa repleta de boas vibraçoes !!! Bjim

manuel marques disse...

A infância é a idade das interrogações, a juventude a das afirmações, a velhice a das negações .

Beijo querida amiga.

Mila Viegas disse...

Tb não sou fã desse tipo de coisa. Não nasci numa família católica, mas tive que me tornar depois de adulta quando precisei fazer primeira comunhão e tudo o mais para me casar. Enfim...
Não sabia que os santos tinham cabelos humanos em Tiradentes. Nossa, que mórbido! Meio nojento, diga-se de passagem... Mas é tradição, cultura, fé e eu respeito a visão dessas pessoas.
Belo post!
beijocas

Astrid Annabelle disse...

Glorinha!
São lembranças macabras mesmo e fico pensando quantas pessoas sentiram o mesmo que você e até hoje não têm a coragem de colocar para fora seus verdadeiros sentimentos. E, mais, todos os anos estão lá, suportando o insuportável.
Sou cristã mas não sigo mais nenhuma religião, justamente por não concordar com certos rituais, como esse que você relata tão bem... de adorar o Cristo morto.
Vamos celebrar a vida, o nascer do Sol, a natureza, a alegria, a beleza, a harmonia.
Sofrer para quê?
Nota dez para este seu depoimento.
Um beijo
Astrid Annabelle

Chica disse...

Que linda e verdadeira és! Essas imagens carregadas de dor, não fazem bem mesmo aos olhos. beijos e tudo de bom,chica

Isadora disse...

Glorinha, cada um tem suas recordações. O que faz bem ou mal a cada um de nós. Respeito, sinceramente, as suas.
Desejo uma boa Páscoa.
Um beijo,
Isadora

Vicentina disse...

Glorinha, tbm fui do tempo que criança não tinha querer, tinha que ir ou fazer e pronto.
Bjs e Boa Páscoa.

Lidia Ferreira disse...

ótimo texto , trauma de infância e fogo rsr
Feliz Páscoa para voce e sua familia
bjs

Açuti disse...

passei pra te desejar uma Páscoa de luz com a família.

bjksss

Lucia Cintra disse...

Credo! Eu cresci na religiao catolica, mas minha familia nao era praticante. So ia em igreja de vez em nunca quando minh avo materna vinha nos visitar e as vezes a acompanhava.

E me lembro bem de como me sentia: uma afobacao, nervoso e falta de ar (talvez ansiedade) de sair logo dali, pois era um saco e tinha coisas melhores a fazer do que perder tempo com aquilo. Detestava mesmo e ainda bem que meus pais nunca me forcaram, so acompanhei minha avo pra ela nao ir sozinha, mas isso nao durou mt.

bjos

Manuela Freitas disse...

Olá Glorinha,
O teu universo de infância é similar ao meu, também eu passei por esses medos e em criança ficava subjugada por esse mistério!...
Para mim, recordar essas vivências é interessante, eramos seres frágeis e vulnerávis, apesar de já mostrarmos o que gostavamos e o que não gostavamos, mas só mais tarde se chega ao questionamento!...
Passo para te desejar uma boa Páscoa, com a tua linda família!...
Beijinhos carinhosos,
Manú

Glorinha L de Lion disse...

Amigos e amigas que passaram por aqui: Boa Páscoa para todos!
Para quem é religioso, para quem não é, para todos enfim, um domingo em família cheio de paz e alegrias é o que desejo aos amigos e amigas do coração! Beijos, reflexões e renascimentos!

Beth/Lilás disse...

Bem, Glorinha, vou tentar resumir o testamento que deixei ontem e só posso me juntar aos seus momentos vividos naqueles tempos, afinal somos da mesma época e nossas mães gostavam dos rituais da igreja e seguiam, faziam-nos participar. Também lembro desses dias tristes em que olhar uma imagem de roxo e ensanguentada me tirava o sono à noite e das procissões que acompanhei junto com minha mãe segurando terço nas mãos e chorando , olhando para a cruz, revivendo todos os anos aquele martírio que, para nós crianças, era uma coisa horrorosa, sem sentido.
Não tínhamos ovos de páscoa, não era moda e nem meus pais tinham dinheiro para comprar para todos os filhos essas coisas nestes feriados, assim, comíamos peixe por vários dias, talvez os mais baratos comprados em feiras livres e o máximo acontecia com o bacalhau de domingo que meu pai gostava de fazer e eu não curtia, pois na época, meu gosto infantil não aceitava aquele sabor diferente.
Hoje, vejo tudo de uma ótica que criei para mim mesma, aproveito para lembrar e reafirmar que preciso renovar dentro de mim o espírito e os conceitos sobre as mais diferentes visões da vida e, posso afirmar sou muito mais feliz assim livre de dogmas e crenças.
um beijinho carinhoso carioca

Graça Pereira disse...

Glorinha, querida
Vou faltar ao dia rosa porque estarei vivendo o blog do meu aniversário. Como já deves ter reparado eu faço postagens de 5 em 5 dias mais ou menos, consoante a minha disponibilidade dos meus afazeres que são muitos e ás vezes, não dá para mudar o programa.
Aqui ficam as minhas desculpas.
Um bom domingo para ti e família.
Graça

Cris Tarcia disse...

Olá, estou conhecendo o seu cantinho que é uma amor, aproveitei um comi um pedaço de bolo quando lia os textos, passei na minha infância em Santa Luzia, acompanhava a prossição e tinha medo do Cristo morto, a maioria de preto, são lembrança que veio com seu texto.

Uma Feliz e Santa Páscoa.
Que a presença de Cristo ressuscitado faça morada em seu coração, em sua vida.


Um abraço